Breve história de vida de representantes dos grupos
 

Belém
Do restaurante para a prancheta...

PROTAGONISTA: MÁRCIO

Márcio é negro, tem 20 anos e vive com a família. Seus pais se separaram há mais de 15 anos. O pai, que faleceu em 2000, era assalariado, na função de auxiliar administrativo. Os três filhos do casal – Márcio, uma irmã de 22 anos e um irmão de 15 anos - sempre moraram com a mãe. Além deles, o avô materno completa a família. Excetuando este senhor, todos estão estudando e Márcio cursava a 2ª série do ensino médio. Sua irmã fez curso de técnica florestal e tinha concluído o estágio, na época da entrevista. Apenas Márcio e a mãe trabalham atualmente. Márcio fez curso de garçom. Trabalha em uma casa noturna. Começou como ajudante de garçom, mas logo passou a trabalhar como auxiliar de barman.

ELENCO DE APOIO: D. MARIA ALICE E TATA
D. Maria Alice, mãe de Márcio, é de Belém, mas morou, estudou e trabalhou alguns anos em São Paulo. Cursou até o terceiro ano de ciências contábeis e trabalhava como auxiliar administrativa. De volta a Belém, começou curso superior em processamento de dados e estava indo para o quinto ano. É assistente de internamento no Hospital 25 de Belém. Estava, porém, afastada desde agosto, porque tem lesão por esforço repetitivo.

Bivavelmo, conhecido e só tratado pelo apelido - Tata - é o gerente da boate e casa de recepção onde Márcio trabalha. Pertence a dois empresários locais. Seu público-alvo é a classe alta e ocupa um prédio de dois andares, em área privilegiada para sua atividade. Um andar é destinado a festas/recepções e outro é destinado à boate.

CENÁRIOS: RESIDÊNCIAS DE D.ALICE E DE TATA
A casa onde mora a família fica em bairro popular – classe D – e é bastante precária. A entrevista foi realizada em uma sala sem iluminação, nem ventilação. No entanto, é bem equipada. Tem rádio, duas televisões coloridas, freezer, máquina de lavar roupa, aparelho de som, telefone, telefone celular e computador. Tem, também, um automóvel, ainda que com muitos anos de circulação.

A entrevista com Tata foi feita em seu dia de folga – uma segunda-feira - e em sua residência, já que no trabalho não haveria tempo disponível. Tata mora com a mulher e uma filha de 7 anos, em um conjunto habitacional popular.

SINOPSE: AS INFLUÊNCIAS DO CURSO NA TRAJETÓRIA DE MÁRCIO
Como a educação formal é condição intrínseca aos planos de Márcio e ele tem bom desempenho, o curso não exerceu influência nesse nível.

Também no nível individual, o curso não chegou a ter efeitos marcantes em seu comportamento. Diz ele que ficou menos rebelde, em casa, é verdade, mas o relacionamento familiar já não tinha problemas. Sua mãe, inclusive, em nenhum momento mencionou qualquer aspecto negativo nas relações de Márcio.

Mas exerceu uma influência importante em sua trajetória profissional, em vários níveis.

Primeiro, porque Márcio percebeu que educação profissional é importante e passou a planejar outros cursos profissionalizantes. De início, ele sequer se interessou pelo curso, porque supunha que, terminando o ensino médio, teria condições de conseguir ocupação e renda.

Segundo, porque conseguiu seu primeiro emprego, ainda que não esteja totalmente satisfeito com ele.

E terceiro, porque pode contribuir para a manutenção da família. A renda familiar mensal passou de 3 para 5 salários mínimos. Isto, inclusive, tem um efeito subjetivo: Márcio se sente muito gratificado por poder ajudar em casa.

Ainda não está procurando outra atividade, mas pretende preparar-se para isso. E, mesmo assim, como um passo intermediário, já que o que deseja mesmo é fazer um curso superior. Assim, a atividade atual ou outra tem a função de custear a continuação dos estudos.

Está em seu primeiro emprego com registro em carteira. Antes disso, exercia um atividade informal, com ganhos eventuais, auxiliando um tio paraplégico em funções cotidianas e em sua fonte de renda: aluguel de louças para festas.

Assim, mesmo estando na área do curso feito, tendo chances de carreira no emprego atual ou se tratar de atividade com demanda de mercado, não é isso o mais importante para Márcio. O importante – o 4º nível - é que Márcio encontrou o caminho para chegar onde deseja. Foi a capacitação que possibilitou a obtenção dos recursos financeiros necessários para concretizar seu projeto profissional: ser engenheiro.

Algumas uvas não estão mais verdes!