Breve história de vida de representantes dos grupos
 

Dois rapazes: ambos são GARÇONS – o curso feito.
Mas com uma grande diferença:

  • um quer seguir carreira na profissão: “aprendi uma profissão”
  • um tem outros planos profissionais: “arrumei um emprego, mas pretendo...”

    Recife
    Da banquinha na feira para o restaurante...

    PROTAGONISTA: LUCIANO
    Luciano é pardo, tem 18 anos. Mora com os avós maternos e um primo de 12 anos. Seus pais são separados, mas freqüentam a casa. Concluíram o ensino médio, porém estavam os dois desempregados, em busca de ocupação. Luciano, na época da pesquisa, estava cursando a 6ª série do ensino básico. Fez o curso de garçom e só ele tem renda regular na família. Trabalha na atividade do curso, com carteira assinada, no período diurno e eventualmente no noturno. Estuda à noite.

    ELENCO DE APOIO: D. EUNICE E SR. LUCIANO
    D. Eunice é a avó de Luciano. Teve oito filhos e apenas quatro estão vivos. Tem baixa escolaridade e cuida, junto com o marido, de um “bar” – na verdade, uma barraca anexa – de aproximadamente 2 metros quadrados. O xará, Sr. Luciano, é o gerente da casa onde o rapaz é garçom.


    A casa fica em bairro da periferia, no alto de um morro, e é bastante precária. Tem equipamentos básicos como fogão e refrigerador e também rádio e televisão colorida.
    O restaurante é de alto nível e tem duas unidades. Uma fica no bairro de Boa Viagem, em frente à praia, e é dirigida a turistas. Outra fica mais afastada, em rodovia, dirigida a um público local, sobretudo homens e mulheres de negócios, executivos e afins. Ambas têm intenso movimento cotidiano. Luciano trabalha na segunda.

    SINOPSE: AS INFLUÊNCIAS DO CURSO NA TRAJETÓRIA DE LUCIANO
    O curso não teve, para o Luciano, influências marcantes no plano individual. Seu comportamento e sua capacidade de relacionamento, por exemplo, já eram bons antes. Nem outros traços de seu perfil mudaram.

    O próprio Luciano e D. Eunice corroboram esta afirmação. Em jogo projetivo - convidados a compará-lo a personagem de novela ou filme, antes e depois do curso - a primeira resposta de ambos foi que não houve nenhuma mudança no Luciano. Também os dois comparam Luciano a atores de televisão e não a personagens que interpretam. Ele diz que, antes ou depois do curso, se acha parecido com Edson Celulari. Atribui essa semelhança à simpatia e ao fato de ser um bom ator, vale dizer, um bom profissional. D. Eunice segue o mesmo raciocínio. Acha que Luciano se parece com Tarcísio Meira, Francisco Cuoco ou José Mayer, porque são bons artistas, bons profissionais e porque são simpáticos.

    A capacitação também não teve influências marcantes em sua vida escolar. A passagem de aluno desinteressado para um aluno mais consciencioso também já tinha acontecido antes. curso, contribuiu, é verdade, para melhor desempenho no papel de estudante.

    Mas houve uma grande mudança, justamente na trajetória de Luciano em direção a uma profissão. Com 13 anos, tinha um ponto em feira livre onde vendia frutas da estação. Fez isso até os 18 anos. Aos 15, teve uma experiência em uma churrascaria. E assim, Luciano ia levando seu cotidiano, trabalhando, sempre preocupado com a manutenção da família.

    Mesmo que educação profissional não garanta emprego, nem tenha esse objetivo, o curso teve efeito direto em sua vida. Tão direto que seu primeiro emprego veio por meio da vivência prática, durante a capacitação.

    Além da obtenção de emprego, Luciano identificou-se com a atividade do curso feito, pretende se aprimorar e fazer carreira como garçom. Tem muita chance de realizar esse plano. Seu perfil é adequado, suas perspectivas começam no restaurante palco de sua primeira experiência e trata-se de atividade com demanda no mercado de trabalho.

    O curso, na medida em que propiciou essa situação, teve ainda um outro efeito marcante no caso do Luciano. Acarretou o rompimento do círculo de pobreza em que a família vivia. Objetivamente falando, porque a renda familiar mensal que era de no máximo dois salários mínimos, dobrou. E subjetivamente, porque Luciano, que dormia em um barracão, no quintal da casa, pediu para que a “varanda” fosse transformada em quarto de dormir. Comprou também um armário, que fica na sala, para que suas roupas não amarrotem.

    As uvas não estão mais verdes...